terça-feira, 14 de agosto de 2012

Senta que o post é longo


Que me desculpem os católicos mais fervorosos, mas preciso falar uma coisa que pode parecer de uma heresia atroz e que nada mais me reste além da fogueira do inferno ou da guilhotina: Deus é foda!!!

Sempre cultivei o pensamento de que a gente tem de se sobressair, ser diferente de alguma forma, senão acaba engolido pela massa e se torna mais um no balaio de gato. Ser diferente de forma positiva, que fique bem claro, não se enchendo de piercings e tatuagens de caveira (as minhas são fofs, borboletinha e clave de sol) pelo corpo inteiro ou pintando o cabelo de rosa-choque com mexas verde-limão.

Não foi exatamente um esforço, porque me é natural, mas acho que por isso sempre optei pela sofisticação como meio de diferenciação. Sofisticação intelectual e comportamental. Fiz meu curso universitário com excelência, obtive todos os diplomas internacionais (de Cambridge) possíveis no curso de inglês, estudei outras línguas (um pouco de francês, espanhol e holandês), li muito a vida toda (embora nem um milésimo do que deveria), sempre optei pela Europa em vez dos Estados Unidos, vi filmes, peças, shows de música e espetáculos de dança não apenas como diversão, mas como forma de absorver cultura, escrevo certo em português (mesmo na internet. Abomino gente ki ixcrevi assim), expressões como “por favor”, “com licença”, “obrigada”, “desculpe” etc são minhas amigas íntimas e estão sempre presentes nas minhas frases, cruzo as pernas ao sentar (como uma mocinha elegante deve fazer), concordo sujeito com o verbo em língua falada, mesmo em situações informais, não jogo papel na rua, lavo minhas próprias calcinhas (na maioria das vezes. Quando a preguiça reina, vai tudo pra máquina de lavar), estou sempre cheirosa, coloco os talheres paralelos quando acabo de comer, cubro a boca com a mão quando bocejo (na maioria das vezes), sou pontual, faço as sobrancelhas, me depilo, não uso roupas vulgares, não uso fio dental (o biquíni, não o dental), uso fio dental (o dental, não o biquíni)...achando que sobressairia pela sofisticação (prometo que no próximo post farei uma lista igualmente longa dos meus defeitos).

Pois bem, aí me vem Deus e fala: “Você quer ser diferente? Então, toma: quatro sisos inclusos, cálculo renal, cálculo na vesícula, obstrução intestinal, cabelo indomável, rótulas do joelho fora do lugar (que me fazem cair e quebrar ambos os pés pelo menos uma vez a cada dois anos), asma, alergia a camarão (por mais de vinte anos, mas dei um “olé” em Deus e passou!), incapacidade de entender logarítmos e análise combinatória, pai inglês que não foi casado com a mãe paraense e que, portanto, não pôde me transferir a cidadania, cólicas maléficas todos os meses, córneas em forma de cone (em vez de esféricas), pé tamanho 39, casada com um engenheiro muito inteligente, mas que nunca leu um livro inteiro na vida, anemia quase crônica e professora de inglês como formação”.

Tá bom pra você?

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