Que me
desculpem os católicos mais fervorosos, mas preciso falar uma coisa que pode
parecer de uma heresia atroz e que nada mais me reste além da fogueira do
inferno ou da guilhotina: Deus é foda!!!
Sempre cultivei o pensamento de que a gente tem de se sobressair, ser diferente de alguma forma, senão acaba engolido pela massa e se torna mais um no balaio de gato. Ser diferente de forma positiva, que fique bem claro, não se enchendo de piercings e tatuagens de caveira (as minhas são fofs, borboletinha e clave de sol) pelo corpo inteiro ou pintando o cabelo de rosa-choque com mexas verde-limão.
Não foi
exatamente um esforço, porque me é natural, mas acho que por isso sempre optei
pela sofisticação como meio de diferenciação. Sofisticação intelectual e
comportamental. Fiz meu curso universitário com excelência, obtive todos os
diplomas internacionais (de Cambridge) possíveis no curso de inglês, estudei
outras línguas (um pouco de francês, espanhol e holandês), li muito a vida toda
(embora nem um milésimo do que deveria), sempre optei pela Europa em vez dos
Estados Unidos, vi filmes, peças, shows de música e espetáculos de dança não
apenas como diversão, mas como forma de absorver cultura, escrevo certo em
português (mesmo na internet. Abomino gente ki ixcrevi assim), expressões como
“por favor”, “com licença”, “obrigada”, “desculpe” etc são minhas amigas
íntimas e estão sempre presentes nas minhas frases, cruzo as pernas ao sentar
(como uma mocinha elegante deve fazer), concordo sujeito com o verbo em língua
falada, mesmo em situações informais, não jogo papel na rua, lavo minhas
próprias calcinhas (na maioria das vezes. Quando a preguiça reina, vai tudo pra
máquina de lavar), estou sempre cheirosa, coloco os talheres paralelos quando
acabo de comer, cubro a boca com a mão quando bocejo (na maioria das vezes),
sou pontual, faço as sobrancelhas, me depilo, não uso roupas vulgares, não uso
fio dental (o biquíni, não o dental), uso fio dental (o dental, não o
biquíni)...achando que sobressairia pela sofisticação (prometo que no próximo
post farei uma lista igualmente longa dos meus defeitos).
Pois bem,
aí me vem Deus e fala: “Você quer ser diferente? Então, toma: quatro sisos
inclusos, cálculo renal, cálculo na vesícula, obstrução intestinal, cabelo
indomável, rótulas do joelho fora do lugar (que me fazem cair e quebrar ambos
os pés pelo menos uma vez a cada dois anos), asma, alergia a camarão (por mais
de vinte anos, mas dei um “olé” em Deus e passou!), incapacidade de entender
logarítmos e análise combinatória, pai inglês que não foi casado com a mãe
paraense e que, portanto, não pôde me transferir a cidadania, cólicas maléficas
todos os meses, córneas em forma de cone (em vez de esféricas), pé tamanho 39,
casada com um engenheiro muito inteligente, mas que nunca leu um livro inteiro
na vida, anemia quase crônica e professora de inglês como formação”.
Tá bom pra você?
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